Com "Eu de Você", Denise Fraga, uma das maiores atrizes do Brasil, une histórias reais, música e literatura para falar sobre a complexidade da experiência humana, em uma peça que emociona e provoca reflexão. Felipe Palhano entrevistou a atriz que falou sobre o espetáculo, carreira, televisão, cinema e política
Se preparando para lançar três filmes nos cinemas em 2025, a atriz Denise Fraga esteve em Fortaleza, no Theatro José de Alencar, apresentando o espetáculo "Eu de Você". Em entrevista ao blog DIVIRTA-CE, ela compartilha reflexões sobre seu trabalho no palco e a profunda conexão com o público que a acompanha. Na peça ela une literatura, música e histórias reais para criar um espetáculo que fala sobre as dores e belezas da vida cotidiana e como o humor se torna uma ferramenta poderosa para a reflexão e a empatia.
A atriz também comenta sobre o impacto das pausas, como a da pandemia, no processo criativo e como o retorno aos palcos se tornou ainda mais potente. Além de seu trabalho no teatro, Denise compartilha suas vivências na televisão e cinema, destacando a evolução de sua carreira e sua constante busca por projetos que a alimentem artisticamente. Para ela, o teatro sempre será sua "casa", um lugar onde a comunicação e a troca com o público são essenciais para a compreensão do mundo e das diferentes perspectivas da vida.
DIVIRTA-CE - A peça "Eu de Você" integra histórias reais com elementos de literatura e música para criar uma narrativa coesa? Como foi o processo de criação do espetáculo?
DENISE FRAGA - Eu acho que nos surpreendemos com o Eu de Você, porque o espetáculo foi criado na sala de ensaio, a partir de histórias que a gente recebeu por cartas, e-mails e vídeos. Era final de 2018, estávamos muito tristes com tudo o que estava acontecendo com o país. As cartas que chegavam traziam histórias de solidões, melancólicas. E a ideia era essa, não era como o Retrato Falado, com as histórias pitorescas e traços de humor. No anúncio que colocamos no jornal eu já falava que queria subir no palco para contar as histórias de todos, calçar os sapatos dessas pessoas. Nessa colocação, eu acho que eu já pedia uma certa profundidade. Eu falava que não precisava ser uma história inteira, que podia ser uma noite, um pedaço de cena vivida, um pedaço de uma memória que você não esqueceu. Esses pedaços de vida eram de solidões, histórias muito íntimas, coisas que as pessoas não postariam. Eu fiquei muito responsabilizada com o que me foi confiado. Eu falava que não queria fazer um espetáculo triste, mas não conseguia. Não queria ser leviana com aquelas histórias, eu queria dar conta daquela profundidade. Acho que a gente se propôs a tratar com leveza da vida dura cotidiana.
DIVIRTA-CE - De que maneira o humor cotidiano presente em "Eu de Você" serve como ferramenta para reflexão sobre a condição humana?
DENISE FRAGA - Não existe viver sem trauma. E o que a gente faz com esses traumas? Isso que a gente precisa partilhar, a história de cada um e as maneiras de lidar com essas adversidades. Acho que talvez isso seja o ingrediente do sucesso desse espetáculo e da empatia que causa, porque todo mundo se identifica. Acho que toda ideia pode ser passada com o humor. O humor é um ingrediente muito poderoso para a comunicação. É um abridor de caminhos para a inteligência, para o pensamento. O humor é completamente linkado à inteligência. Fazemos parte de uma grande roda, que é a roda da humanidade. Todo mundo tem problema e todos vão sofrer, não tem jeito. Mas ainda há uma coisa, que é a beleza da existência, estar no jogo da vida.
DIVIRTA-CE- Como a escolha de músicas como "O Cordão" de Chico Buarque e "Suspicious Minds" de Elvis Presley contribui para a atmosfera do espetáculo?DENISE FRAGA - O Suspicious Minds é uma escolha muito inusitada. E a gente coloca a música do Elvis em outro contexto, fora dessa versão mais romântica, que fala de ciúme. Essas mentes suspeitas da peça são aquelas que a gente precisa largar a mão para conseguir viver melhor. Hoje somos altamente prevenidos, preconceituosos, não escutamos, não tentamos entender as diferenças. O cordão a gente cantava no final, porque quando a peça estreou era 2019, pleno governo Bolsonaro, todos vendo aquele desfile de absurdos. Enquanto eu puder cantar, sorrir, ninguém vai me acorrentar. A música do Chico. Hoje a gente canta no final uma outra do Chico, que ele fez no fim do governo Bolsonaro, no fim dessa época tão terrível que a gente viveu, esse embrutecimento, endurecimento, esse show de ódio.
DIVIRTA-CE - Quais são os principais desafios ao retornar com uma temporada de um espetáculo após uma pausa como a pandemia de COVID 19?
DENISE FRAGA - Na pandemia parece que eu levei uma rasteira, que fui abatida em pleno voo. Quando tudo fechou, eu não acreditava que eu ia parar a peça que tinha sido aquela dor para fazer. Durante toda a criação tinha sido aquele parto. Eu chorei muitas vezes. Foi muito profundo, uma experiência muito intensa para mim. E logo em seguida, veio a pandemia, eu não acreditava que eu ia parar naquela hora. Eu estreei em 2019, a gente parou, voltamos em 2022. Quando a gente voltou, foi para a sala de ensaio para reensaiar, para rever a peça. E foi muito louco, porque tudo parecia potencializado em seu sentido e não diluído.
DIVIRTA-CE - Quais são as expectativas para a temporada de "Eu de Você" em Fortaleza, especialmente após o sucesso das sessões anteriores com ingressos esgotados?
DENISE FRAGA - A gente esteve aí na Caixa Cultural, foi incrível, lindo.
Eu agradeço profundamente essas pessoas que enfrentaram aquela fila para nos ver. Eu até desculpo a fila. É um teste de resistência para pessoas que querem muito ver e, às vezes, não têm nem condições de ver de outra maneira, que não seja com ingresso gratuito. E eu agradeço muito, ver aquelas pessoas com as suas cadeirinhas armadas, sentadas, às vezes, no sol, esperando horas antes de começar a distribuição dos ingressos. É uma coisa muito gratificante. Eu fico com a dor no coração. Mas, ao mesmo tempo, eu só posso agradecer.
DIVIRTA-CE - Como foi a transição entre o teatro e a televisão no início de sua carreira, quais as maiores dificuldades? O que mudou na televisão daquela época para hoje em dia? O que piorou e o que melhorou, na sua opinião? DENISE FRAGA - Eu decidi me dedicar ao teatro, que é um lugar que me alimenta a alma, digamos assim.
Acho que sempre fiz teatro, mesmo fazendo televisão. Mas uma época, com os meus filhos pequenos, e fazendo a série Retrato Falado na TV Globo, fiquei muito tempo sem fazer, sete anos. E quando voltei, eu escolhi a peça A Alma Boa de Setsuan que foi um divisor de águas para mim. O Brecht virou um dos meus autores preferidos, porque eu subia no palco quase para contar uma fofoca mesmo, para falar, olha o que esse cara escreveu, olha como ele dá voz para a tua angústia, olha o que esse cara diz, como te ajuda a viver de alguma maneira. Eu faço televisão, faço novela, só tenho que só me programar, porque eu sempre tenho um projeto de teatro, ou em andamento, ou em cartaz. Mas quando tenho um convite de novela, eu me programo para, enfim, dar uma pausa na turnê, ou mesmo cinema, que eu tenho feito bastante. Eu paro aquele tempo para filmar, mas eu volto. Eu gosto muito de fazer televisão, na verdade, eu ando até com muita saudade da câmera, porque eu filmei em 2023, quando fiz três filmes, que vão ser lançados esse ano. Sinto saudade também do set. Mas o teatro é a minha casa, o teatro é para onde eu volto sempre, é para onde eu estou sempre, eu tenho uma continuidade no teatro.
DIVIRTA-CE - De que maneira a peça "Eu de Você" aborda a temática da empatia e da compreensão mútua entre indivíduos de diferentes origens e experiências?
DENISE FRAGA - O Eu de Você é um convite a você passar pela experiência do outro. Não é um espetáculo exatamente interativo, mas eu incluo a plateia na cena.
Às vezes eu olho no olho de alguém e ele vira o meu interlocutor, sem precisar fazer nada. Mas eu sinto que a peça convida você a sentir o que o outro sentiu. Mais do que só essa coisa catártica do teatro, a peça tem esse jogo. Essa peça faz eu ver uma coisa muito legal, que é as pessoas gargalhando e enxugando lágrimas.
DIVIRTA-CE - "Retrato Falado" foi uma grande marca da sua carreira na TV. Quais os grandes personagens que você mais gostou de interpretar e trabalhos que você tem orgulho de ter feito no teatro e no cinema?
DENISE FRAGA - É, o Retrato Falado realmente foi um marco. O Eu de Você, de alguma maneira, tem a ver com o Retrato Falado na medida que são histórias reais. Eu acho que a pegada é diferente. Na TV eram sempre histórias engraçadas que tinham começo meio e fim. O Eu de Você são pedaços de histórias.
Elas não têm essa coisa, agora eu vou contar a história do fulano. São histórias misturadas e são histórias que tem essa trança com a poesia, a literatura, a música. Tem uma banda incrível em cena, que são umas musicistas maravilhosas.
DIVIRTA-CE - Quais são seus próximos projetos artísticos e como eles refletem sua visão contínua sobre a arte e a sociedade?
DENISE FRAGA - Eu tenho uns convites para cinema. Esse ano talvez seja lançado aqui um filme, o segundo que fiz em Portugal, que é o Sonhar com Leões, que é um filme incrível. E Livros Restantes, que é um filme que eu fiz com a Márcia Paraíso em Florianópolis. O Sonhar com Leões é do Paolo Marino Blanco, que é um diretor grego-português. Eu fiz também um filme lindo em Recife, que é o Edificante, do Marcelo Lordello. Eu tenho feito cinema.
Me deixa muito feliz parar um pouco as minhas temporadas de teatro para fazer cinema. Porque, como eu te disse, estou com saudade do set.